Nos Estados Unidos da América do Norte, não há questão
política que não se transforme, cedo ou tarde, em discussão judicial [01].
A impressão é de Alexis de Tocqueville, juiz, cronista, viajante, estudioso
francês que visitou os Estados Unidos em 1830. Subtraído o adjetivo político,
o texto que segue faz o aggiornamento, a atualização do observador
francês, invocando que nos Estados Unidos o cotidiano é plasmado pela
experiência jurídica. Manchetes de jornais (headlines) indicam casos que
o judiciário aprecia [02]. Noticiários televisivos acompanham
julgamentos e inquéritos em passo frenético. Multiplicam-se juízes ad hoc
de televisão que julgam para o público que acompanha programas estereotipados e
preconceituosos. Clichês, vulgaridades; um festival quimérico de picuinhas. O
direito é objeto de consumo, faz parte da cultura nacional. Há viciados há no
acompanhamento de julgamentos. Partidos, facções e grupos dividem-se nos
vereditos. Uma mania que a muitos contamina. O objetivo do presente excerto é
sumária apresentação de casos célebres, com estações em nomes famosos,
evidenciando judiciário e opinião pública no direito norte-americano,
qualificando sútil relação entre direito e imaginário [03],
aproximação que oxigena cultura popular, temperada por ciência política,
literatura [04], história e sociologia.
Ainda em 1805, discutiu-se o impeachment [05]
de Samuel Chase [06], então juiz da Suprema Corte (associate
Supreme Court justice). Foi a única vez em que o Congresso norte-americano
valeu-se de prerrogativa constitucional para julgar juiz nas condições em que os
fatos se deram [07]. A questão era fundamentalmente política e
refletia conflito entre executivo e judiciário, mediado pelo legislativo.
Suscita também prós e contras do modelo norte-americano de apontamento de juízes
federais [08] pelo executivo, em todas as instâncias, o que matiza
decisões judiciais em âmbito federal com o liberalismo dos democratas ou com o
conservadorismo dos republicanos.
Samuel Chase fora um dos signatários da declaração de
independência em 1776, era um dos pais da pátria, um dos founding fathers.
Conduzido à Suprema Corte por pressão de George Washington, Samuel Chase fazia
oposição a Thomas Jefferson, presidente eleito em 1801. Jefferson já enfrentara
a Suprema Corte logo no início de seu mandato, por ocasião do caso Marbury v.
Madison. Naquela ocasião o juiz John Marshall evitara um confronto com o
presidente, concebendo o controle de constitucionalidade (judicial review)
[09]. Com isso, deixou de aplicar uma lei que beneficiava William Marbury,
que então disputava com James Madison, secretário de estado, a propósito da
indicação de Marbury como juiz federal, por parte do antecessor de Thomas
Jefferson, o ex-presidente John Adams [10]. Moralmente derrotado pela
decisão de Marshall, Jefferson decidira atacar a Suprema Corte por meio do
Senado, onde possuia vinte e cinco votos, contra nove do partido contrário.
Com base no artigo III, seção 1 [11], da
constituição norte-americana, processou-se Samuel Chase por supostos crimes que
ele teria cometido como juiz, ao julgar casos nos quais figuravam aliados de
Jefferson. Fora capitulado em oito infrações; em uma delas, teria erroneamente
definido o crime de traição (treason), em outra, teria feito comentários
políticos para um grupo de jurados em Baltimore. As acusações eram infundadas,
porém propiciaram devassa nos julgados de Samuel Chase, que fora defendido no
Senado por advogados experientes, a exemplo de Robert Goodloe Harper. Em que
pese a maioria que o presidente da república tinha naquela casa legislativa, não
se conseguiu a condenação juíz, dada a fragilidade das acusações, pelo que a
absolvição de Samuel Chase fora uma derrota para Thomas Jefferson, que talvez
tentaria também obter o impeachment do juiz Marshall, se conseguisse a
condenação de Chase [12]. O fundo político da arenga empolgou a
opinião pública e marcou o judiciário norte-americano, cuja função meramente
técnica é criticada pelos defensores do realismo jurídico, que percebem que o
direito é experiência, e não lógica [13].
Em 1850 um escândalo sacudiu Boston, à época local de moral
vitoriana, calvinista, elitista. A cidade é separada de Cambridge pelo rio
Charles. Em Cambridge localiza-se a universidade de Harvard, de muito prestígio.
Lá John Webster lecionava química e mineralogia na faculdade de medicina.
Webster convivia com pessoas das classes altas de Massachusetts, a exemplo de
Oliver Wendell Holmes (pai do famoso juiz da Suprema Corte norte-americana) e de
Henry Wadsworth Longfellow (festejado poeta). Porém Webster vivia de minguado
salário de professor. Endividou-se com um senhor chamado George Parkman, membro
de rica família de Boston. Porque não conseguia receber de Webster os
quatrocentos dólares de que era credor, Parkman foi até o devedor, que o teria
assassinado. Parkman teria ameaçado Webster, a quem disse que usaria de sua
influência para afastá-lo da faculdade. Webster teria desmembrado o corpo de
Parkman, queimado partes do mesmo no laboratório onde trabalhava, escondendo as
demais partes em vários locais. Um assistente de Webster, horrorizado, encontrou
pedaços do corpo do morto. No julgamento os advogados de Webster insistiram que
as partes encontradas não comprovavam o crime, pois não poderia se precisar se
realmente os restos mortais (remains) eram de Parkman. Médicos opinaram
pela primeira vez na história do judiciário norte-americano. Criterioso modelo
científico fora utilizado de modo a comprovar-se a culpa de Webster além de
qualquer dúvida (beyond a reasonable doubt). Webster acabou confessando o
crime com o objetivo de obter a boa vontade do governador estadual, que poderia
livrá-lo da pena de morte, impondo punição menos severa. Mas não houve
clemência. Em 30 de agosto de 1850 Webster foi enforcado, colocando fim num
dos mais sensacionais escândalos que balançou a sociedade de Boston e a América
vitoriana [14].
E foi também em Massachusetts que em 1921 julgou-se o
rumoroso caso Sacco e Vanzetti [15]. Os fatos iniciam-se com simples
homicídio e desdobraram-se em causa internacional na qual o mundo acreditou
que Massachusetts executara dois homens inocentes por causa de suas idéias
radicais [16]. Os Estados Unidos receberam forte contingente de
imigrantes italianos. A ideologia anarquista acompanhara muitos desses
imigrantes, ativistas políticos que continuaram a pregação contrária a qualquer
forma de organização política, com base em Mikhail Bakunin, entre outros. A
reação nos Estados Unidos fora muito violenta e desde meados da década de 1910
perseguiram-se anarquistas italianos, que foram deportados. É nesse contexto de
preconceito, de ódio e de embate político que a opinião pública em torno do caso
deve ser entendida, também fora dos Estados Unidos, dadas as dimensões
internacionais que o julgamento alcançou.
Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti foram acusados de terem
assassinado Frederick Parmenter e um guarda chamado Alessandro Berardelli.
Teriam roubado cerca de quinze mil dólares, dinheiro que seria usado pelos
proprietários para pagamento de operários de uma fábrica de sapatos. Ninguém
efetivamente presenciou os fatos, porém algumas testemunhas falaram que dois
italianos seriam os culpados. Suspeitou-se de um tal de Mike Boda, em
cujo carro encontraram-se livros sobre comunismo, além de material subversivo. O
carro estava com Sacco e Vanzetti. Sacco portava uma pistola calibre 32 com nove
balas. Vanzetti carregava um revólver 38. Com Sacco encontrou-se uma nota
redigida em italiano, que pregava a luta pela existência. Apurou-se a
origem das armas, que não estavam regularizadas. Vanzetti invocou que no momento
dos fatos encontrava-se vendendo enguias. Sacco afirmou que trabalhava em uma
fábrica de sapatos, quando os crimes teriam ocorrido. Porém outras acusações
havia e certa histeria da promotoria suscitou mais episódios. Organizou-se
comitê internacional para a defesa de Sacco e Vanzetti. No entanto, por causa do
desencontro de informações dadas pelos réus (quanto a preço e procedência das
armas), além de similitudes entre munição dos acusados e balas assassinas, o
júri condenou os italianos. Protestos surgiram em vários lugares, na França,
Itália, Bélgica, Suíça; a embaixada norte-americana em Paris fora cercada por
manifestantes. O célebre jurista norte-americano Felix Frankfurter (mais tarde
juiz da Suprema Corte) saíra na defesa dos réus em inflamados artigos [17].
O governador de Massachusetts apontou comissão para avaliar a lisura do
julgamento. A decisão foi mantida, inclusive com opiniões de Oliver W. Holmes,
Jr. e Harlan F. Stone, juízes da Suprema Corte. Em 23 de agosto de 1927 Sacco e
Vanzetti foram executados. Cinquenta anos depois, Michael Dukakis, então
governador de Massachusetts, reabilitou os dois italianos. Porém, durante o
julgamento os fatos inflamaram a opinião pública. Conservadores de extrema
direita sustentaram o ódio e a intolerância. Liberais e anarquistas qualificam o
episódio como imperdoável erro judiciário, a apontar desilusões no sonho
americano.
Em outro campo ideológico encontra-se Al Capone [18],
famoso gangster, cuja vida instiga imaginações. Sua trajetória cruza-se
com as autoridades do imposto de renda norte-americano. Seria exemplo clássico e
pedagógico de que o crime tributário não compensa. Criado no Brooklyn (em Nova
Iorque), Capone mudou-se aos vinte e um anos para Chicago, onde ajudou um tio,
que gerenciava um bordel. Cinco anos mais tarde, Capone comandava imensa rede de
cinco mil chantagistas. Pagava salários de mais de trezentos mil dólares por
semana para seus empregados, que militavam no mundo do crime. Capone não tinha
piedade dos rivais, que eliminava por motivos de somenos. Chantageava policiais
e políticos; a impunidade era a marca de seus reiterados crimes. As autoridades
começaram a investigar a vida tributária de Capone. Ele não tinha conta
bancária, não possuia propriedades em nome próprio. Capone pagava com dinheiro
vivo tudo o que comprava. Não deixava rastros. O agente federal Frank J. Wilson
listou transações pessoais do gangster, que não encontravam justificação
de receita prévia, verdadeira fratura exposta, no jargão da fiscalização
tributária. Ternos caríssimos, contas de telefone, carros de luxo, casas e
barcos na Flórida surgiram em cenário de pouquíssimas explicações plausíveis. O
agente Elliot Ness investigou a atuação de Capone à frente da produção e
comercialização de bebidas alcóolicas, atividades então proibidas, por força de
emenda constitucional. Intimidado, Capone propôs confissão de culpa (plea
bargaining) em troca de punição menos severa. Autoridades federais não
aceitaram a barganha e Capone foi condenado a onze anos de prisão e a pagar
multa de cinquenta mil dólares [19]. De Chicago (onde foi preso)
Capone foi removido para penitenciária em Atlanta. De lá foi transferido para
Alcatraz, em São Francisco, na Califórnia, prisão de segurança máxima. Capone
foi mais tarde hospitalizado (em 1938) apresentando avançado estado de sífilis.
Foi libertado em 1939 e viveu na Flórida até 1947, ano de sua morte. Passou seus
últimas dias atormentado por imaginários pistoleiros, tomado por avançada
demência. Al Capone permanece junto a opinião pública como referência de que não
há impunidade contra os agentes do imposto de renda. Manobra-se sua imagem como
sustentáculo de premissa puritana que nos dá conta de que a vida fora da lei
seria um apocalíptico convite ao sofrimento [20].
A opinião pública norte-americana empolgou-se também com o
julgamento de Bruno Richard Hauptmann, em 1935 [21]. Era um imigrante
alemão, que em setembro de 1934 pagou com uma antiga nota de dez dólares compra
de combustível que fizera num posto de gasolina. Intrigado com a nota, fora de
circulação, o frentista anotou a placa do veículo e contatou a polícia. As
autoridades constataram que se tratava de nota utilizada no pagamento do resgate
(ransom) do filho de Charles Lindbergh [22], episódio que
chocara a nação, em 1932. É que embora o preço tenha sido pago, o bebê fora
assassinado barbaramente. Além disso, tratava-se do filho de um ídolo nacional.
Lindbergh é herói da aviação. Em maio de 1927 voou de Nova Iorque a Paris,
cruzando o Atlântico em passeio solitário.
Na casa de Hauptmann a polícia encontrou cerca de quatorze
mil dólares, em notas antigas, que teriam sido utilizadas para o pagamento do
resgate da criança, Charles Jr.; cinquenta mil dólares fora o valor entregue por
Lindbergh. O jornal New York Times calculou os bens de Hauptmann em cerca
de quarenta e nove mil dólares. Lindbergh garantiu que a voz de Hauptmann fora a
mesma que ouvira na noite em que pagara o resgate. Quem duvidaria do mito dos
ares ? Encontrou-se entre os objetos de Hauptmann pedaço de papel com o telefone
de John Condon, professor aposentado que conduzira as negociações entre
Lindbergh e o suposto sequestrador. A polícia evidenciou semelhanças entre a
caligrafia do acusado e bilhetes recebidos por Lindbergh. Fragmento de escada
encontrada na casa de Lindbergh na noite do sequestro parecia pertencer a escada
guardada na garagem da casa de Hauptmann.
William Randolph Hearst [23], magnata da imprensa
sensacionalista [24], contratou advogados para a defesa de Hauptmann,
em troca de direitos exclusivos para a venda da história do acusado. Hauptmann
explicou em juízo a origem do dinheiro. Afirmou que um cidadão alemão de nome
Isidor Fisch, ao retornar para a Alemanha para tratamento médico, deixara em seu
poder alguns pertences. Entre eles, uma caixa de sapato. Alguns anos após a
partida de Isidor, Hauptmann teria aberto a caixa e encontrado cerca de quarenta
mil dólares. Como Isidor devia-lhe sete mil e quinhentos dólares, Hauptmann
sentiu-se legitimado para usar parte do dinheiro. A defesa demonstrou que a
prova referente a escada era insuficiente. Escadas como aquelas havia por toda
parte. O júri no entanto pendeu para a condenação de Hauptmann. O governador de
Nova Jérsei (que poderia comutar a pena) teria visitado o condenado na prisão,
dizendo-se não convencido da culpabilidade de Hauptmann. Porém a opinião pública
clamava pelo herói, exigia a punição de Hauptmann, que foi eletrocutado em 3 de
abril de 1936. Em 1991, a viúva de Hauptmann, então com noventa e dois anos de
idade, continuava lutando para reabilitar o nome do marido. Exigia indenização e
apresentava robusta prova de que o FBI e polícia teriam fraudado as provas,
conduzindo os jurados a condenarem Hauptmann. E por fim, quanto ao dinheiro
do resgate, ela ainda insistia, fora deixado por Isidor Fisch [25].
Em 1947 o nome de Charles Chaplin, célebre comediante inglês
radicado nos Estados Unidos, frequentou o noticiário por causas de problemas
legais. Chaplin era o conhecido pequeno vagabundo (little tramp)
do cinema mudo. Produziu, dirigiu e encenou clássicos como Luzes da Cidade,
Tempos Modernos, O Grande Ditador. Sua vida particular era
espionada pelos guardiães da moralidade, que tinham em mira os inúmeros
casamentos do ator, assim como frequentes relacionamentos do mesmo com mulheres
mais novas, a exemplo de Paulette Goddard e especialmente Oona O’Neill.
Tempos Modernos outorgou-lhe fama de simpático ao pensamento socialista; o
filme denuncia implacavelmente a exploração e a coisificação do trabalhador
industrial. Isso não passou despercebido ao macartismo, ao movimento de
caça as bruxas. Chaplin deixou os Estados Unidos e viveu na Suíça, onde morreu
em 1977 aos oitenta e oito anos de idade. O Grande Ditador satiriza
Hitler e o nazismo. Inesquecível a deliciosa cena na qual o ditador brinca com
uma imensa bola, que representa o mundo. Formidável o momento em que Hitler e
Mussolini conversam; ao ditador italiano reservou-se uma pequena cadeira, um
banquinho, que indicava desconforto e pequenez. Era como Hitler via o mundo,
segundo Chaplin.
Konrad Bercovici era roteirista (screenwriter) de
Chaplin, com quem manteve longa e afetuosa relação de amizade. Todavia, logo
após a proibição da exibição do Grande Ditador na Alemanha [26],
Bercovici ajuizou ação contra Chaplin em Nova Iorque, alegando plágio. Bercovici
teria concebido o filme, preparado excertos do roteiro, desenhado cenários.
Exigiu como compensação seis milhões e meio de dólares. Muita gente acompanhava
o julgamento pela imprensa. Celebridades de Hollywood prestaram depoimentos.
Chaplin defendeu-se dizendo que jamais vira o roteiro (script) de
Bercovici. Disse também que não tinha nenhum acordo verbal com o autor da ação.
Chaplin insistiu que todos os contratos que firmara até então eram escritos.
Bercovici reduziu o pedido para quinhentos mil dólares e depois para trezentos e
cinquenta mil. Chaplin negociou junto a corte em nome próprio e reduziu o
astronômico pedido inicial a noventa e cinco mil dólares. Com o acordo,
desfez-se o júri. A opinião pública ganhou mais elementos para fofocas. O
julgamento marcou momento de ira contra Chaplin que mais tarde, perseguido por
suas idéias supostamente socialistas e por sua afeição por moças de tenra idade,
deixará os Estados Unidos pela Europa, onde viveu e morreu, cercado pelo
respeito e pela admiração devidos aos gênios.
Em 1949 os norte-americanos tomaram conhecimento de que os
russos também possuíam a bomba atômica. Nova onde de histeria toma conta da
nação, que se ergueu contra o perigo vermelho [27]. A guerra fria
transforma mais uma vez o país, que vê inimigos e traidores por toda a parte. O
julgamento de Julius e Ethel Rosenberg, que foram condenados a morte e
executados na cadeira elétrica, acusados de espionagem e de venda do segredo que
conduziu a bomba atômica russa, é o mais ilustrativo exemplo jurídico desse
momento [28]. Em 1950 Klaus Fuchs foi preso na Inglaterra. Tratava-se
de um cientista nuclear alemão que trabalhara no projeto norte-americano para
construção da bomba atômica, o American’s Manhattan Project [29].
Ele foi condenado a quatorze anos de prisão ao confessar que passara informações
aos soviéticos. Nos Estados Unidos prendeu-se Harry Gold, que teria trabalhado
para Fuchs, levando as informações aos espiões russos. Chegou-se a David
Greenglass e a seu cunhado Julius Rosenberg. Greenglass confessou que fora
convidado a espionar para os russos por Julius Rosenberg e sua mulher, Ethel. O
FBI conseguiu ligar vários amigos do casal Rosenberg a rede russa de
espionagem. Greenglass disse ter obtido dos Rosenberg descrição da bomba atômica
usada em Nagasaki. Desenhos foram encontrados e após esvaziamento da sala do
tribunal, exibidos aos jurados, como o segredo da bomba atômica, o que
certamente causara impressão nos julgadores leigos. Subitamente surgiram
inúmeros indícios que incriminavam o casal. Um fotógrafo testemunhou
(descobriu-se depois que ele mentiu) que o casal lhe pedira fotos de passaporte.
Deduziu-se que pretendiam fugir do país. Foram condenados a pena de morte.
Pedidos de clemência vieram do mundo todo. O Papa Pio XII, Albert Einstein e
demais personalidades tentaram em vão sensibilizar as autoridades
norte-americanas. O presidente Eisenhower negou perdão. A Suprema Corte
recusou-se a apreciar novos pedidos. Não obstante protestos e indignação o casal
foi eletrocutado em 19 de junho de 1953.
Em corte temporal e conceitual, o presente excerto observa
que outro importante componente do imaginário popular, pelos efeitos reais, a
violência policial, fora também detectado em março de 1991, quando em Los
Angeles alguns policiais ordenaram que um homem chamado Rodney King parasse seu
carro [30]. King teria se recusado a sair do veículo e por isso os
policiais teriam usado cacetetes para obrigá-lo a deixar o automóvel. Ao que
consta, Rodney King não tinha oferecido resistência. Teria sido agredido por
três policiais enquanto outros tantos a tudo assistiam, sem tomar nenhuma
atitude. Os policiais não sabiam que um cineasta amador filmava o episódio e que
o filme seria a base da acusação contra as autoridades. Os policiais insistiam
que cumpriam o dever e que foram obrigados a agir com energia, dada a
resistência de Rodney King. O caso transcende do trivial, dada a condição de
King : ele é afrodescendente. Além disso, havia rumores que os policiais o chamaram de
nigger, palavra ofensiva, nos dias politicamente corretos em que vivemos
[31]. É difícil a composição de um corpo de jurados que contenha pessoas
de cor e que reflita circunstância desprovida de preconceito, o que é
problemático no modelo judiciário norte-americano [32]. Por outro
lado, é impossível o controle de fatores externos, a influenciarem a decisão de
jurados [33]. Qualquer esforço de racionalidade parece distante do
direito na vida real [34]. Absolvidos os policiais, a cidade de Los
Angeles enfrenta uma rebelião (riot) de proporções só vistas na década de
sessenta [35], quando a movimentação pelos direitos civis estava na
ordem do dia [36], e nomes como Martin Luther King, Jr., George
Wallace e Malcom X eclipsavam a nação [37]. Conflitos de rua
resultaram em mais de cinquenta mortes e prejuízos que orçam em mais de um
bilhão de dólares. O governo federal intervém e os policiais foram em seguida
processados por desrespeito a direitos civis de Rodney King. Em 1993 dois dos
policiais envolvidos foram condenados a trinta meses de prisão cada um deles. Os
episódios são dramáticos e comprovam que a convivência entre diferentes grupos
raciais [38] é ainda uma utopia, enquanto a violência policial atesta
um tempo difícil, de radicalismo, de incompreensão.
Samuel Chase, John Webster, Sacco, Vanzetti, Capone,
Hauptmann, Chaplin, Rosenberg e Rodney King ilustram lista que poderia ser
acrescida por Chesmann (o bandido da luz vermelha), Hoffa, Manson, Angela Davis,
Patricia Hearst, Oliver North, Noriega, Mike Tyson, O.J. Simpson e tantos outros
conhecidos ou anônimos, que fazem da vida do país uma incansável busca de
culpados, reais ou não, fascínoras ou bode expiatórios, lombrosianos ou
freudianos [39], que comprovam que a atitude do homem médio em face
da lei é um misto de desconfiança, temor, ódio, paixão, curiosidade. Estudar o
direito norte-americano sem esse aviso simbólico é privar o jurista do dúvida
socrática que promove a revelação do mundo.
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Capitalism. London : Routledge, 1997. Tradução para o inglês de Tarcott
Parsons.
WHITE, James Boyd. The Legal Imagination. Chicago/
London: The University of Chicago Press, 1985.
Notas
01
Alexis de Tocqueville, Democracy in America,
p. 123. Na versão inglesa : There is almost no political question, in the United
States, that does not sooner or later resolve itself into a judicial question.
02
Lawrence M. Friedman, Law in America, a Short
History, p. 3.
03
James Boyd White, The Legal Imagination.
04
Guyora Binder e Robert Weisberg, Literary
Criticisms of Law.
05
Robert A. Heineman, Steven A. Peterson e Thomas H.
Ramussen, American Government, p. 239.
06
Peter Irons, A People’s History of Supreme Court,
p. 99 e ss.
07
Edward W. Knappman (ed.), Great American Trials,
p. 72.
08
William Burnham, Introduction to the Law and
Legal System of the United States, p. 177 e ss.
09
Harold J. Spaeth e Edward Conrad Smith, The
Constitution of the United Stares, p. 24 e ss.
10
Bernard Schwartz, A History of the Supreme Court,
p. 39 e ss.
11
A constituição norte-americana fala em bom
comportamento (good behaviour) dos juízes.
12
Stephen G. Christianson, Samuel Chase
Impeachment, in Edward W. Knappman, (op.cit.), p. 73. Tradução e adaptação
livre do autor. Samuel Chase’s acquittal was a defeat for Thomas Jefferson, who
may have planned to impeach Chief Justice John Marshall if Chase had been found
guilty.
13
Oliver Wendell Holmes, Jr., The Common Law,
in William W. Fisher III, Morton J. Horwitz e Thomas A. Reed (org.),
American Legal Realism, p. 9.
14
Stephen G. Christianson, Dr. John Webster Trial,
in Edward W. Knappman (op.cit.), p. 108. Tradução e adaptação livre do autor.
Webster’s hanging put an end to one of the most sensational scandals to rock
Boston society and Victorian America.
15
Kermit Hall, The Magic Mirror, Law in American
History, p. 250 e ss.
16
Bernard Ryan, Jr., Sacco-Vanzetti Trial, in
Edward W. Knappman (op.cit.), p. 288. Tradução e adaptação livre do autor. (…)
it ended as an international cause in which the world believed that
Massachusetts had executed two innocent men because they held radical views.
17
Morton J. Horwitz, The Transformation of American
Law, 1870-1960, p. 175 e ss.
18
Hugh Brogan, The Penguin History of the USA,
p. 495.
19
A maior quantia até então paga em processos dessa
natureza.
20
Max Weber, The Protestant Ethic and the Spirit of
Capitalism.
21
Bernard Ryan Jr., Bruno Richard Hauptmann Trial,
in Edward W. Knappman (op. cit.), p. 386 e ss.
22
E.D. Hirsch, Jr., The New Dictionary of Cultural
Literacy, p. 294.
23
E.D. Hirsch, Jr., op. cit., p. 289.
24
Caracterizado no famoso filme de Orson Welles,
Cidadão Kane.
25
Bernard Ryan, Jr., Bruno Richard Hauptmann Trial,
in Edward W. Knappman (op. cit.), p. 391. Tradução e adaptação livre do
autor. The ransom money, she still insisted, was left behind by Isidor Fisch.
26
Acreditou-se que o filme provocaria na audiência
repugnância ao inves de hilariedade. Bernard Ryan, Jr., Bercovici v. Chaplin,
in Edward W. Knappmann (op. cit.), p. 428. Tradução e adaptação livre do autor.
(…) the audience said the film should not be shown throughout the nation lest it
stimulate revulsion rather than mirth.
27
Allan Nevins e Henry Steele Commager, A Pocket
History of the United States, p. 495 e ss.
28
Bernard Ryan, Jr., Trial of Julius and Ethel
Rosenberg, in Edward W. Knappman (op. cit.), p. 452 e ss.
29
E.D. Hirsch, Jr., op. cit., p. 294.
30
Colin Evans, Los Angeles Police Officer’s Trials,
in Edward W. Knappman (op. cit.), p. 824 e ss.
31
A questão semântica bem qualifica a natureza de
problemas raciais nos Estados Unidos. Na década de 50 era comum o uso da
expressão coloured people, dada a associação que os defendia, liderada
por Charles Houston e por Turgot Marshall. Nigger e nigro têm
sentido ofensivo e é usado nos ghettos e em letras de música rap. Na
década de 60 usou-se black, e por extensão locuções como black is
beautiful ou black power. Na década de 80 usa-se Afro-American
ou African-American. Recentemente é comum e bem aceito o uso de people
of color.
32
Frederick G. Kempin, Jr., Historical Introduction
to Anglo-American Law, p. 71.
33
Robert A. Carp e Ronald Stidham, Judicial Process
in America, p. 397.
34
Roberto Mangabeira Unger, Law in Modern Society.
35
Robert G. McCloskey, The American Supreme Court,
p. 151 e ss.
36
Lucas A. Powe, Jr., The Warren Court and American
Politics.
37
Morton J. Horwitz, The Warren Court and the
Pursuit of Justice.
38
Gary Minda, Postmodern Legal Movements, p.
167 e ss.
39
Madan Sarup, An Introductory Guide to
Post-Structuralism and Post-Modernism.